[…] quem somos nós, quem é cada um de nós senão uma combinatória de experiências, de informações, de leituras, de imaginações? Cada vida é uma enciclopédia, uma biblioteca, um inventário de objetos, uma amostragem de estilos, onde tudo pode ser continuamente remexido e reordenado de todas as maneiras possíveis. (Calvino, As seis propostas para o próximo milênio, p. 138)

Na contemporaneidade, as escrituras acerca do rótulo cultura são tantas e tão variegadas que qualquer definição seria ingênua, ineficaz e incompleta. Isso, não apenas pelo acervo discursivo-teórico sobre o tema, mas, antes, pela dificuldade em desenvolver/abarcar uma definição que contemple os meandros, às vezes, pouco transparentes do que a sociedade convenciona ou denomina o que seja tal elemento.
 
Entender que todo discurso seja ele literário, histórico, linguístico, cinematográfico, ensaísta, etc, contempla um território cultural, significa estar de acordo que toda e qualquer escritura está intrinsecamente relacionada a uma dada cultura. Esta subjaz a qualquer constructo humano do qual não há possibilidade de se desvincular. Na esteira desse pensamento, Hugo Achugar (2006) é categórico ao afirmar que o locus de enunciação está diretamente ligado ao homem, este, fala, então, de um lugar determinado e, por conseguinte, sua fala é impregnada da cultura de tal lugar.
 
A Rascunhos Culturais com artigos cujas temáticas abrangem diversas áreas das Ciências Humanas propõe divulgar uma série de textos de modo a pôr em circulação culturas, pensamentos, idiossincrasias e reflexões acerca da humanidade, demonstrando como tais elementos divergem-se de um olhar para o outro. Queremos, portanto, favorecer um espaço cuja multiplicidade de pontos de vista traduza as mais variadas formas de pensar a cultura e os bens culturais, onde nenhuma perspectiva rechace outras, mas que, conforme as palavras de Gilles Deleuze, em seu A dobra (1991), diferentes elementos possam congregar o mesmo cosmos, criando um mundo de infinitas dobras.
 
Italo Calvino em Seis propostas para o próximo milênio afirma que “[…] os livros mais modernos que mais admiramos nascem da confluência e do entrechoque de uma multiplicidade de métodos interpretativos, maneiras de pensar, estilos de expressão” (CALVINO, 1990, p. 131). Como Calvino, queremos pensar na precariedade das totalidades, na discrepância da palavra final e na (im)possibilidade de exaurir um determinado tema. Dissertar, ensaiar, teorizar – independentemente do verbo empregado – sobre arte, literatura, história, educação, culturas e os bens que desta emergem implica num trabalho muitas vezes efêmero, temporal, transitório, não havendo, portanto, uma palavra exata ou acabada. A proposta da Rascunhos é, como afirma o próprio nome, rascunhar, propor perspectivas teóricas divergentes, incentivar a interlocução acadêmica e a divulgação de diferentes pesquisas. É um pôr de cartas na mesa, onde cada autor apresentará uma a uma, combinando com as dos outros para que, em conluio, possamos construir um projeto escritural que abarquem o “eu” e o Outro
 
Na esteira do pensamento sobre a prática escritural, observemos as palavras de Drummond:
 

Entendo que a poesia é negócio de grande responsabilidade, e não considero honesto rotular-se de poeta quem apenas verseje por dor-de-cotovelo, falta de dinheiro ou momentânea tomada de consciência com as forças líricas do mundo, sem se entregar aos trabalhos cotidianos e secretos da técnica, da leitura, da contemplação e mesmo da ação. Até os poetas se armam, e um poeta desarmado é, mesmo, um ser a mercê de inspirações fáceis, dócil às modas e compromissos. (ANDRADE, 1992, p. 1344-1345).

Drummond entendia que a escritura literária deveria ser pautada por motivações que estavam para além de um trabalho superficial, ordinário e de pouca reflexão. Estendendo tais proposições à escrita científica, comungamos com o pensamento do poeta e creditamos que nosso projeto escritural far-se-á a partir de um aparato crítico-teórico relevante que comprove, assim como os poetas que se armam, a seriedade, o comprometimento e o labor com as palavras por parte dos que se lançam nos meandros do discurso crítico.
 
Hodiernamente as Humanidades ainda é a prima pobre no hall das ciências; em alguns casos nem recebe reconhecimento como tal. Estamos em busca de criação de espaços igualitários. Objetivamos, ademais de autonomia, uma sensibilização por parte das Instituições competentes e de fomento. Escrever acerca dos bens culturais de qualquer sociedade significa refletir acerca da cultura, idiossincrasia e história dessa sociedade. Escrever é condição sine qua non para entender o mundo no qual estamos inseridos; sem esta reflexão que se dá – entre outros elementos – pela escritura não há entendimento do homem por ele mesmo. Perpetuamo-nos a partir da palavra. Posicionamo-nos por intermédio do discurso, sem o qual nada existira.
 
Rascunhos literários. Rascunhos históricos. Rascunhos antropológicos. Rascunhos sociológicos. Rascunhos cinematográficos. Rascunhos poéticos. Rascunhos filosóficos. Rascunhos memorialísticos. Rascunhos linguísticos. Rascunhos escriturais: Rascunhos culturais. Rascunhemos!
 
 
 
REFERÊNCIAS
 
ACHUGAR, Hugo. Planetas sem boca: escritos efêmeros sobre arte, cultura e literatura. Trad. Lyslei Nascimento. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006
ANDRADE, Carlos Drummond de. Carlos Drummond de Andrade – poesia e prosa. 8ª ed. Rio de Janeiro: Nova Aguiar, 1992.
CALVINO, Italo. As seis propostas para o próximo milênio. Trad. Ivo Barroso. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.
DELEUZE, Gilles. A dobra: Leibniz e o barroco. Trad. Luiz B. L. Orlandi. Campinas, SP: Papirus, 1991.